Desde que a Lei 14.300/2022 entrou em vigor, o mercado de energia solar no Brasil convive com uma pergunta crescente: ainda compensa instalar painéis fotovoltaicos com o Fio B sendo progressivamente cobrado na conta de luz? Em 2026, esse percentual chegou a 60% — e vai subir para 75% em 2027, 90% em 2028 e 100% em 2029. A resposta curta é: sim, ainda compensa muito. Mas os detalhes importam, e é sobre eles que vamos falar neste artigo.
O que é o Fio B e por que ele mudou o cálculo da energia solar
O Fio B é a parcela da tarifa de energia elétrica que remunera as distribuidoras pelo uso da infraestrutura de distribuição — postes, fios, transformadores, subestações e toda a rede que leva energia da usina até a sua casa. Durante anos, quem gerava energia solar e injetava o excedente na rede recebia créditos que compensavam 100% dessa tarifa. Com a Lei 14.300/2022, essa lógica mudou.
Para sistemas homologados a partir de 7 de janeiro de 2023, o consumidor passou a pagar uma fração do Fio B sobre a energia que consome da rede — mesmo que injete mais do que consome. A progressão é: 30% em 2024, 45% em 2025, 60% em 2026, 75% em 2027, 90% em 2028, chegando a 100% em 2029. Sistemas instalados até 6 de janeiro de 2023 têm direito adquirido à isenção total até 2045.
Na prática, o que muda é o seguinte: parte da sua conta de luz, proporcional ao quanto você consome da rede, não é mais compensável pelos créditos solares. Isso reduz — mas não elimina — a economia gerada pelo sistema fotovoltaico.
O impacto real de 60% do Fio B em Brasília
Para entender o efeito concreto, é preciso separar dois componentes da conta de energia: a energia em si (o kWh consumido) e o Fio B (o custo de distribuição). Em média, o Fio B representa entre 30% e 40% da tarifa total cobrada pela CEB-D em Brasília. Com 60% desse componente sendo cobrado mesmo para quem tem solar, a economia líquida cai — mas ainda é expressiva.
Um consumidor residencial típico em Brasília com conta de R$ 600/mês pode, com um sistema bem dimensionado, reduzir sua fatura para algo entre R$ 80 e R$ 120 — mesmo com o Fio B em 60%. Isso representa uma economia de 80% a 87% na conta. Em 2029, quando o Fio B atingir 100%, essa economia recuará para algo próximo de 65% a 75%, dependendo do perfil de consumo e do dimensionamento do sistema.
É uma diferença real, que precisa estar no orçamento de qualquer projeto responsável. Mas não invalida a decisão de investir.
Bandeira amarela em junho: mais um motivo para agir agora
Além do Fio B, junho de 2026 trouxe de volta a bandeira tarifária amarela, confirmada pela ANEEL. Isso significa um acréscimo de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos — um custo adicional que não existe para quem já tem energia solar e consome predominantemente a própria geração.
A bandeira amarela é ativada quando os reservatórios das hidrelétricas entram em nível de atenção, obrigando o sistema elétrico a acionar termelétricas mais caras. Brasília, no período seco do Cerrado (de maio a setembro), é especialmente vulnerável a esse ciclo. Para quem ainda depende 100% da rede, cada bandeira amarela representa um custo extra que se acumula ao longo dos meses.
Para quem tem solar, a conta simplesmente não sobe nesse período — e não por acaso é justamente no período seco que Brasília registra seus melhores índices de irradiância solar, com médias acima de 6 kWh/m²/dia.
Payback: como o Fio B afeta o tempo de retorno
Antes da Lei 14.300, um sistema residencial em Brasília apresentava payback médio entre 4 e 6 anos. Com o Fio B progressivo, esse prazo se estende — mas não dramaticamente. A razão é que o custo da energia que continua sendo evitada (a parcela de consumo próprio, que não passa pela rede) permanece integralmente compensado. O Fio B só incide sobre a energia que você ainda retira da distribuidora.
Um sistema bem dimensionado, que cobre 90% ou mais do consumo com geração própria, é pouco afetado pelo Fio B — porque a maior parte da economia vem justamente de não comprar energia da rede, e não dos créditos de compensação. É por isso que o dimensionamento correto nunca foi tão importante quanto agora.
Se quiser entender como calculamos o retorno financeiro de um projeto, leia nosso artigo sobre retorno sobre investimento em energia solar.
Sistemas instalados até janeiro de 2023: situação privilegiada
Se você instalou e homologou seu sistema fotovoltaico até 6 de janeiro de 2023, está protegido da cobrança do Fio B até 2045. Isso representa uma vantagem econômica relevante: enquanto novos sistemas terão que absorver a progressão até 100% em 2029, os sistemas mais antigos continuam compensando 100% da energia injetada na rede.
Essa distinção é importante para quem está avaliando a compra de um imóvel com sistema solar já instalado: vale verificar a data de homologação na distribuidora antes de qualquer negociação.
Vale a pena instalar agora, em 2026?
A resposta é sim — com uma condição: o projeto precisa ser feito com engenharia de verdade, não com um "kit padrão" dimensionado pelo número de cômodos ou pelo valor da conta antiga. Com o Fio B em 60% e subindo, um sistema subdimensionado vai deixar uma fatia maior do consumo exposta à tarifa da distribuidora, reduzindo a economia e alongando o payback desnecessariamente.
O que mudou com a Lei 14.300 não é a viabilidade da energia solar — é a exigência por projetos tecnicamente sólidos. Sistemas sobredimensionados também perdem eficiência financeira, porque o excedente injetado na rede gera créditos que compensam menos do que antes.
Em Brasília, com irradiância acima da média nacional, tarifas da CEB-D entre as mais altas do Centro-Oeste e um período seco longo que pressiona as bandeiras tarifárias, a equação ainda favorece claramente o investimento em solar fotovoltaico — desde que o projeto seja feito direito.
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